O mundo ainda está prestes a acabar

Dias ensolarados e quentes assim, com todas essas pessoas rindo e se cumprimentando aos agarrões à moda brasileira, me fazem lembrar dos primeiros dias após o fim da praga. Essas cenas me embrulham o estômago. Aliás, no primeiro dia após a proclamação do fim da crise sanitária, a população tomou as ruas como se fosse uma libertação de nações contra grandes tiranias. Não tenho ideia de como foi após o anúncio do fim da Segunda Guerra ou a queda do Muro de Berlim, mas posso imaginar que a reação da população tenha sido parecida. Parecia que todo ser humano, até então confinado, irrompeu nas ruas com seus familiares, vizinhos, e seus animais de estimação.

Eu, que voltava para casa naquela tarde cuja luz me queimava os olhos, fui pego por essa onda de corpos que se agarravam, apertavam, beijavam e choravam aos gritos de “graças a Deus, o Senhor é bom”. Eu teria achado isso engraçado e desprezível, se o pavor de morrer engolfado pela multidão não tivesse tomado conta de mim.

Cheguei em casa encharcado de suor, devido ao esforço para atravessar os corpos que se espremiam e amontoavam, no melhor estilo de mortos-vivos em filmes de zumbis. O suor daqueles indivíduos, que derretiam em meio à sua festividade, também se misturava ao meu. Só tive forças para fechar todas as janelas, num esforço sem sentido de abafar o barulho tempestuoso das ruas e acalmar meu gato, que estava morrendo de medo. O barulho lá fora pareceu durar uma eternidade.

No dia seguinte, estava em todos os jornais e meios de comunicação: nunca se viu tamanha aglomeração neste país. Todos os estabelecimentos possíveis, de shopping centers a botecos de bairro, mantinham filas inimagináveis. As ruas estavam abarrotadas de carros, motos e bicicletas; calçadas quase sem nenhum centímetro livre. Basicamente, todos foram ocupar os locais públicos. Não havia nenhuma via livre de pessoas. A barragem que continha o acúmulo de tédio, frustração e seja lá o que mais havia se rompido; não havia nada que os parasse. Particularmente, isso não me animava. Só de pensar em sair e dar de cara com a multidão, os risos, a felicidade exacerbada, me causava calafrios. E foi exatamente aí que me dei conta de algo: todos estavam felizes e jubilosos com o fim da quarentena massiva, mas e o luto? A tristeza por todos que haviam morrido?

As estatísticas diziam que duas em cada três pessoas haviam perdido alguém na “guerra” (termo usado nos últimos dias da quarentena) contra a praga. No entanto, o que meus olhos viam e ouvidos percebiam agora era o vazio de gemidos de lamento pelos milhares e milhares de mortos, e a ausência de tristeza pelos que se tornaram inválidos para o resto de suas vidas pelas chagas da doença.

Nos dias posteriores, mesmo com as autoridades pedindo cautela no retorno às atividades de antes da praga, a fim de eliminar qualquer possibilidade de uma nova onda da doença, as multidões continuaram nas ruas e assim permaneceram por muito tempo. Nem nos dias de aplicação massiva da vacina houve tanta algazarra. Foi com o passar de um mês que a quantidade de pessoas nas ruas começou a diminuir aos poucos, quase imperceptivelmente. Era como se as pessoas tivessem descoberto um novo mundo, mas, com o tempo, viriam a se acostumar novamente e tudo voltaria ao corriqueiro. E ainda assim, nenhum momento de luto.

Enquanto o sol queima minha cabeça, os risos e sorrisos queimam meu peito. Essa estranha alegria pela velha-nova vida soa ao meu espírito como uma marcha sobre os milhares de almas perdidas. Posso sentir as mãos fantasmagóricas dos mortos tentando agarrar o calor, enquanto seus troncos bruxuleantes agonizam sob os pés sobreviventes que sambam na passarela asfaltada da vida daqueles que sobreviveram. Essa imagem me deixa doente; sinto uma tremenda ânsia sempre que saio às ruas cheias. Mas sinto-me doente também pela minha felicidade prévia.

Enquanto o mundo se silenciava sob o flagelo daquele mal desconhecido, as ruas se esvaziaram de um jeito nunca antes visto, e ali encontrei meu habitat natural: as ruas praticamente desertas, o som tranquilizador do vento sacudindo os galhos e folhas das árvores, o canto e o silvo das aves, o latido e o miado distantes – ah, a doce sinfonia da ausência de vozes humanas!

Nesse ambiente, que para muitos seria desolador, para mim era a essência da liberdade, e isso me energizava, me preenchia com um gozo que nunca havia experienciado antes: a paz. E confesso que, em muitos momentos, me peguei pensando se aquilo não era o melhor. Desejei profundamente, em determinados momentos, que esse fosse o mundo dali em diante, solitário, pertencente apenas a mim. E isso me entristeceu. Minha felicidade e paz dependiam da morte de tantos e do enclausuramento de todos os outros. E, enquanto assisto à loura majestosa se divertindo ao saborear seu sorvete diante de mim, me culpo por minha hipocrisia de criticar sua felicidade, sendo que a minha era ainda mais cruel.

Mas, assim como sofro, me expio desse pecado ao voltar minha mente para o passado dos homens, sempre crescendo e se desenvolvendo às custas do sofrimento de outro alguém. Quantos não foram eliminados para satisfazer o estilo de vida ou a ambição de alguns poucos? Quantos conflitos não foram iniciados por essa razão? Talvez, no fundo, tudo isso não passe de uma natureza humana exposta em sua forma mais pura. Ou talvez esse calor em minha cabeça esteja me fazendo delirar. É hora de voltar para casa, colocar meu gato no colo e fingir que o mundo lá fora ainda está prestes a acabar.

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