Despertar

Despertei abruptamente, acometida por uma dor lancinante em várias regiões da minha cabeça. Não era como as crises de enxaqueca habituais das quais estava acostumada. Parecia que agulhas finas atravessavam meu cérebro, deixando rastros de queimaduras de gelo. Isso fez com que eu pulasse da cama. A dor era tão intensa que minha visão estava turva. Precisava urgentemente de dipirona, ou mais provavelmente, de uma cartela inteira. Tive que apoiar as mãos nas paredes e no criado-mudo ao lado para me guiar e evitar cair, já que minhas pernas mostravam sinais de uma fraqueza contundente. Percebi que meus pulmões puxavam o ar de forma pesarosa, como se tivessem pouca capacidade de oxigenar o sistema. Fechei meus olhos por alguns instantes, ainda apoiada na cômoda ao lado, na tentativa de recobrar alguma força e me libertar das amarras da dor que me impediam de pensar. Esse exercício fez com que eu recuperasse parte da visão perdida. Olhei ao redor; era o meu quarto, ou alguma versão dele. É difícil explicar. Havia uma espécie de sobreposição enevoada, trazendo a sensação de familiaridade e estranheza ao mesmo tempo; era a minha casa, mas não era. 

Ao olhar de volta para minha cama, caí para trás, levando comigo o criado-mudo e o copo d’água que repousava sobre ele. O susto que motivou a queda foi causado pelo vislumbre do que estava sobre minha cama. Havia um corpo, uma pessoa deitada nela. Tentei me recompor, levantando-me com dificuldade e agarrando-me a outra mesa, normalmente repleta de livros, mas que neste momento estava estranhamente vazia. Minha respiração tornou-se ainda mais pesada e menos nutritiva quando, para minha surpresa e horror, percebi que não me recordava de nada da noite anterior, do dia anterior. A memória estava mais embaçada que a neblina fantasmagórica e minha visão turva juntas. Era óbvio que algo muito errado tinha acontecido comigo. Só esperava que qualquer que fosse o mal pairando sobre mim não fosse o mais óbvio que me passava pela cabeça naquele instante. 

Minha primeira reação ao centralizar a mente e focar a pouca energia que sentia fluindo em meu corpo foi correr para a porta, os pés descalços e o carpete amorteceriam qualquer som. Mesmo que a pessoa na minha cama não tenha despertado com minha queda, indicando um sono profundo, nada garantia que não acordaria com os próximos ruídos ou mesmo ao sabor do próprio silêncio. Tanto o corredor quanto a sala de estar também emanavam a aura esbranquiçada do quarto. “Estou na dimensão da maldita Silent Hill, ou algo assim?” – um pensamento bobo para o terror que me acometia. Tentei abrir a porta. Trancada. A chave não estava presa nela. Olhei em volta, revirei a mobília da sala, e nada da chave. A única opção era voltar ao quarto, procurar pela chave e escapar da minha casa, agora sentida como um cativeiro, a prisão ao final do corredor da morte. 

De volta ao quarto, as chaves não estavam na cômoda, nem no armário, nem nas gavetas. Um calafrio se apossou de mim, atravessando a espinha e parando na nuca. Cada instante parecia me aproximar do fim de uma contagem regressiva para o que viria quando a pessoa em minha cama despertasse. E sem que a terrível dor da enxaqueca passasse, outra sensação insuportável brotou em meu corpo. Algo parecia caminhar por dentro de mim, vindo de baixo, cortando minha carne, subindo e descendo no pequeno espaço em que se mantinha. Minhas forças me deixaram por um instante, caí de joelhos querendo gritar. Sentia que poderia urrar o mundo para fora de meus pulmões fracos e quase vazios. Mas o medo me impediu. O grito se transformou em lágrimas enquanto eu estava de joelhos, dobrada sob mim mesma, com as mãos na boca para impedir que num vacilo eu gritasse. Me deitei e arrastei para perto da cama, torcendo para encontrar as chaves ali, no chão, debaixo dela. Aquela posição era degradante, senti-me como um verme se arrastando entre a sujeira, fugindo o mais rápido possível de um predador inescapável. Assim como o verme, só restou frustração; a chave não estava lá. Só havia mais uma opção onde acreditava poder encontrar o objeto para minha fuga. 

Não raro, ao chegar cansada em casa, acabo caindo no sono com as chaves no bolso ou mesmo nas mãos, as descobrindo em meio ao desconforto de ter perdido a consciência sobre a forma de seu metal. Se fosse o caso delas estarem novamente em minha cama, teria que lidar com o corpo que estava ocupando. Aquela pessoa estranha que certamente era como um monstro que surgira para me destruir. Eu não sabia quem era, não o conhecia, mas encontrá-lo naquela situação, repentinamente, na minha cama, me causava horror. Um pânico indescritível. Não conseguia suportar sua presença, sua existência naquele momento, roubava toda a segurança que minha casa representava, transformando-a em um cativeiro. 

Levantei-me novamente com muito esforço. Parei rente à cama e observei o estranho que ocupava meu leito. Sua respiração era profunda, desordenada. Não parecia ter nenhum movimento que não fosse o subir e descer do peito. E no mesmo movimento subiam e desciam medo e raiva em mim. Levantei vagarosamente os lençóis, olhei e tentei contornar o intruso para continuar a procurar. A cada pequeno movimento dele, meu coração disparava a ponto 

de explodir, ou meu corpo congelava como se tivesse instantaneamente perdido todo resquício de vida em mim. A cada respirar mais profundo, enquanto ainda estava sobre seu corpo, sentia como seu inspirar sugasse meu espírito. Nunca senti tanto pavor em minha existência. Mas, afinal, falhei em encontrar o que buscava. Minhas opções estavam se esgotando. O que aconteceria quando ele despertasse? Qualquer possibilidade que surgia na imaginação era desesperadora e preferível à morte. Morte. Era a saída. 

Precisava ser rápida; o tempo estava passando rápido, e a contagem regressiva estava chegando ao fim. Precisava de algo fatal. Voltei-me para a cozinha. A neblina estava cada vez mais densa, e eu sabia que se continuasse assim, logo estaria mergulhada numa imensidão branca e cega. Pensei na ferramenta que melhor me serviria; então, veio à mente a maior e mais afiada de minhas facas. Removi-a da gaveta como se tirasse um objeto sagrado de sua arca abençoada. Observei-a, o objeto de minha salvação, toquei-a com a ponta dos dedos para sentir seu metal frio e liso. Por um instante, deslizei a lâmina por minhas mãos até meu pulso. Ela me libertaria. Retornei ao quarto. 

Lá estávamos, eu e meu algoz. Ele deitado tranquilamente em minha cama, emanando sua presença aterradora, sua respiração maldita e grotesca. Sua existência me assustava e enojava. Levantei a faca com ambas as mãos, com a lâmina voltada para baixo, na direção daquele ser. Precisava ser certeira. Controlei o tremor de minhas mãos e estava pronta; era o momento sacrificial em prol da salvação. No instante derradeiro, antes da queda em direção ao golpe, o rosto daquele corpo se voltou para mim. Seus olhos se abriram tranquilamente antes de se arregalarem de pavor ao me observar. Havia algo naqueles olhos apavorados. 

Aqueles malditos olhos eram os meus. 

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