A Náusea

Despertei essa manhã com uma terrível dor de cabeça e um enjoo muito incomum para mim. Logo que me sentei na cama, uma sensação como uma pressão empurrava meus ombros e cabeça para baixo. Cedi a ela e deixei o corpo tombar, curvando-se, obrigando-me a me apoiar com os cotovelos nas pernas e a cabeça pousada nas mãos. Ainda assim, não podia dispor de muito tempo nesse estado. Logo, havia preparado uma quantidade de café, mais que o suficiente para encher uma garrafa térmica e sobrar no recipiente de barro onde o coara.

Fui até a varanda com a garrafa cheia em uma mão, a caneca na outra, o maço de cigarros e o isqueiro no bolso. Ali, comecei meu ritual matinal, que existia há anos e era realizado sempre que despertava, uma hora antes de ir ao trabalho: enchi a caneca pela primeira vez com o café adoçado, coloquei-a sobre a mesinha encardida, peguei o maço, removi um cigarro e o acendi. Coloquei o restante próximo à garrafa e o isqueiro sobre o maço. Normalmente, tomava um gole de café, tragava o cigarro e repetia esse ciclo, sem pensar, até que não sobrasse mais nada no maço nem na garrafa. Depois me banhava, vestia as roupas do trabalho e partia para a usina. Dessa vez, logo no primeiro trago e gole, fui tomado por uma tontura, uma náusea, e algo começou a borbulhar em minha cabeça, como uma chuva repentina que surge de onde menos se espera. Soube, então, que o dia seria péssimo.

As primeiras horas de trabalho transcorreram normalmente, fluindo como já se tornara habitual, quase automático. Apenas os resquícios do estranho mal-estar da manhã, somados à mecanicidade de meus afazeres, quebravam a harmonia da repetição que já não me exigia nenhuma reflexão. No horário do almoço, ao guardar o jaleco, observei pela janela os funcionários se dirigindo pelo caminho pavimentado de sempre, alguns em dupla, outros em pequenos grupos, preenchendo a calçada, que não era muito larga. Assim como eles, eu fazia aquele caminho na grande maioria das vezes, com exceção dos dias em que precisava descer até o departamento de carregamento de caminhões. Mas nem me lembro quando foi a última vez que fui para lá. Ver a multidão desfilando para o almoço me causou certa aflição, um tipo de desgosto. Não quis seguir o fluxo de pessoas rumo ao refeitório. Tomei o caminho pelo outro departamento, o que me tomou vinte minutos a mais que o habitual.

Ao finalmente montar meu prato e virar meus olhos para as mesas, notei que Elisângela me olhava fixamente, como se me questionasse e, então, ordenasse silenciosamente que me sentasse com ela, exatamente como sempre fazia. “Onde você estava?”, havia algo de irritação e decepção em sua voz. Reparei que ela mal havia tocado em sua comida, provavelmente estava me esperando. De certo, eu sempre lhe avisava quando iria me atrasar, mesmo que por instantes. E quando avisava, dava um jeito de fazer o que era necessário e chegava no horário certo. Apenas respondi que viera pelo outro lado e não expliquei o porquê. Ela sabia da minha aversão pelo cheiro de diesel dos caminhões, mas mesmo assim havia dúvida em sua expressão quando lhe respondi.

Mesmo com meu atraso, fomos até o estacionamento, como sempre fazíamos às sextas, e entramos em meu carro. Ela me ofereceu um cigarro, que aceitei, sendo entregue a mim antes que ela pegasse para si mesma. Estendeu para mim a chama do isqueiro e depois acendeu o seu cigarro no meu. Demos um trago e, em meio a pouca conversa, outro, ficando nos olhando enquanto fumávamos. Em meio a essa quase meditação, notei que todas as sextas fazíamos o mesmo. Então, enumerei silenciosamente, em minha cabeça, os procedimentos que se seguiriam: nós jogaríamos as bitucas dos cigarros pelas janelas, que fecharíamos a seguir; eu colocaria meus braços ao redor do pescoço dela, falaria algumas coisas sujas em seu ouvido e a beijaria, para então morder seu pescoço e apalpar seu seio. Ela, então, me perguntaria se eu poderia levá-la para casa hoje. Todas as sextas eu podia e o fazia, ainda assim, ela perguntava. Notei que isso tudo já não me despertava tanta emoção e desejo, mas era uma comodidade à qual meu corpo estava acostumado.

Não parecia certo quebrar o rumo natural dos dias. “Sim”, falei olhando para ela, sem sair do meu banco e sem fechar a janela (depois de ter derrubado metade do cigarro no chão). Elisângela me observava com dúvida e perguntou com estranheza na voz: “Sim, o quê?”. Respondi que sim, iria levá-la para casa hoje. Ela riu, dizendo que eu havia respondido sem que ela perguntasse. Havia algo de nervoso em seu riso e no olhar. “Você está estranho hoje, rapazinho.” Esse último comentário, que eu nunca ouvira, e a expressão curiosa dela me atiçaram, uma ignição de desejo por ela que não sentia desde… algum tempo. Me aproximei e a beijei, acariciando suas coxas e sua virilha. Gastamos bons instantes ali e quase nos atrasamos. O misto de satisfação e surpresa naquele rosto me energizou, mas essa mesma energia me foi tomada quando ela me ofereceu outro cigarro, como sempre fazia no retorno ao batente. Assim que levantou o cigarro em minha direção, fui tomado por aquela mesma pressão da manhã, juntamente com um nojo. Tentei disfarçar minha expressão, mas, pela cara de Elisângela, não consegui. Voltamos.

Como combinado, levei Elisângela até sua casa e logo subimos para seu apartamento, como de costume. Neguei a cerveja que sempre tomávamos, sabia que me sentiria, no mínimo, estranho se aceitasse, pelo menos naquele dia. Guiei a mulher para a cama bem mais rápido do que o habitual. Nos beijamos e acariciamos. Ela ficou surpresa e bem interessada com minha “vontade” de possuí-la rápido, imaginando que eu não conseguia aguentar para tê-la naquela noite. Mal sabia que, na verdade, eu queria terminar aquele processo de uma vez, poder dormir e escapar àquela anormalidade. Enquanto fazia sexo oral nela, pensava no dia. Lembrar de tudo o que fiz fora da rotina me deu o tesão necessário para saciar aquela necessidade, aquela fome que, como a do alimento, vem sempre em forma de uma satisfação ilusória para obrigar o organismo à repetição. Após saciar Elisângela, coloquei-a em meu colo e esperei que dormisse, o que não demorou. Ela era acostumada, desde criança, a dormir cedo, pelo que me contara em outro momento. Desvencilhei-me do corpo sonolento da mulher com quem transara, colocando-a de lado. A dor que sentira naquela manhã martelava novamente minha cabeça. Decidi partir. Era normal que eu dormisse com ela nesses dias, mas não conseguiria, não hoje. Parti.

Dirigi dando várias voltas pelo bairro. Morava bem próximo de Elisângela, então não seria um problema. Não queria ficar com ela, mas não queria retornar para casa tão cedo. Continuei a dar voltas, observando tudo: os vira-latas abandonados dormindo na porta de um restaurante já fechado; poucos transeuntes caminhando aqui e ali, despreocupados; uma fila para entrar em uma balada, já próximo de outro bairro; grupos sentados a mesas dentro de um bar ou restaurante, bebendo e rindo, felizes; outros trabalhadores de turnos tardios, esperando cansados no ponto de ônibus. Tudo me parecia desinteressante e vazio. Provavelmente, tudo isso, todas essas pessoas, faziam as mesmas coisas de sempre. Esse pensamento me cansou. Senti-me tomado por algo que parecia vir do meu âmago, um enjoo crescente que poderia me fazer vomitar a qualquer momento. Minha mente se encheu de confusão e a sensação de estar suspenso. Não, o que me possuía era uma espécie de náusea incontrolável. Desmaiei, e meu carro foi de encontro a um poste.


Nos poucos dias que passei no hospital, não fui acometido, a princípio, pelo mal-estar que culminara no acidente que me internou. Pareceu-me que, nesse período sem repetições e fora do estado letárgico do continuum da rotina, algo dentro de mim reativou-se: a reflexão. Sim, há muito não parava para refletir sobre nada, mas ali, deitado no leito do hospital, essa capacidade me retornou.

Por razões que não consigo identificar, passei a pensar nos dias do passado, logo antes do acidente, antes da náusea. O dia imediatamente anterior ao acidente começara como o posterior. Despertar cedo para desfrutar do café com cigarros tranquilamente, ir ao trabalho, almoçar com Elisângela, fumar com ela, beijá-la, fumar novamente, voltar ao expediente, às vezes ir ao mercado, ir para casa, assistir algo na internet ou na TV. E o dia anterior? A mesma coisa. E antes também. Tentei focar nos dias diferentes: às sextas, ir para a casa dela, transar, conversar, dormir. E aos fins de semana e dias de folga? Ir a um restaurante, passar o dia com Elisângela, voltar para casa, dormir. Quanto mais tentava forçar a mente para ir além, mais percebia que as memórias eram basicamente as mesmas, com pequenas variações. O enjoo voltou. Tentei chamar a enfermeira, mas a voz foi interrompida pelo que subia do estômago para a boca, seguido por um vômito. Voltei a pensar, mas também não sabia bem o que procurava, provavelmente algo que fosse além da repetição dos meus atos, de todos os dias. Foi então que percebi uma das causas do meu mal-estar: a repetição, a rotina. Só de pensar nelas, a doença se manifestava.

As visitas de Elisângela, em dias e horários variáveis, e a rotatividade dos funcionários do hospital — médicos, enfermeiras e até os encarregados da limpeza do quarto — ajudaram a me livrar, por um curto período, do sofrimento da náusea. No entanto, logo esses indivíduos se tornaram apenas personagens recorrentes e itinerantes, perdendo suas identidades diante dos meus olhos. Mal conseguia reconhecê-los, e isso já não ajudava mais a me salvar desse mal silencioso que havia se apossado de mim. Voltei a pensar nos dias do passado, que agora se somavam à repetição entorpecente do clima hospitalar. Pensava no “ontem”, no dia anterior e no precedente, e essa cadeia contínua de mesmice e servidão à rotina ia além da minha memória mais distante.

Quando retornei para casa e, consecutivamente, para o trabalho, fui informado e apresentado à pessoa que ficou no meu lugar durante a minha ausência. Era um funcionário qualquer, que trabalhava na usina fazia anos e nunca tivera a oportunidade de ocupar o meu cargo, mas, certamente, tinha minhas atribuições. Ao menos teoricamente, ele tinha o mesmo tipo de estudo que eu, as mesmas capacidades. Não me impressionei por isso, mas, ao mesmo tempo, sim. Subitamente, entendi que ali havia pelo menos uma dúzia de pessoas que poderiam fazer as mesmas coisas que eu, e que minha ausência não seria realmente sentida nos encargos dos deveres. Da mesma forma, eu poderia ser substituído por Elisângela por qualquer outro, pois os corpos são todos iguais, com as mesmas funções e mecanismos. Questionei-me, então, se minha existência tinha algum valor verdadeiro, algo além de ser uma engrenagem facilmente substituível e com curto prazo de utilidade.

E, no final das contas, tudo retornou à sua rotina. Até que a própria agonia, o nojo e a náusea se tornaram cotidianos e desinteressantes, diluindo-se naquela imensidão inconveniente e vazia: parece-me que quem viveu um só dia nesses tempos tem a experiência irrelevante de ter vivido toda uma vida.

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