Começou a trabalhar aos onze anos. Nascida em uma família pobre, os pais e irmãos trabalhavam como podiam para garantir o sustento da casa. Nem sempre o esforço coletivo era recompensado, pois um dos membros da família precisava da remuneração dos outros para sustentar o vício que o ajudava a esquecer a vida miserável que levava. Mas ela ainda tinha sonhos naquela época e se sentia bem no restaurante onde trabalhava, ajudando na cozinha.
Tão jovem, ela, que viria a ser mãe de quatro filhos — três homens e uma mulher —, teve seu primeiro e único romance, seu primeiro e único homem. O relacionamento não foi bem aceito, e as ameaças do pai e a agonia nos olhos da mãe deixaram claro que a aceitação nunca viria. Aos dezesseis anos, aceitou a proposta do namorado, três anos mais velho. Fugiram.
Nos primeiros anos de sua nova vida, ela ainda trabalhava e mantinha alguns pequenos sonhos. O primeiro a se desfazer foi o de se casar antes de ser mãe, ou mesmo de se casar na igreja, o que nunca aconteceu. Teve um singelo casamento no cartório antes dos dezoito anos, já com o ventre protuberante. Devido às dificuldades durante a gravidez e após o parto, deixou de trabalhar. Assim, morreu o segundo sonho. Mesmo sem emprego, o trabalho do marido garantia uma renda suficiente para uma vida muito mais confortável do que jamais tivera.
Mesmo após o nascimento do segundo filho, o primeiro menino, não havia dificuldades financeiras. Ela se sentia bem com seus filhos e sua vida de dona de casa, totalmente dedicada à família, especialmente aos filhos. Então veio o terceiro. As dificuldades começariam em breve. A primeira delas foi que, por alguma razão, na terceira gravidez ela não conseguiu produzir leite, o que gerou gastos extras com produtos de suplementação. No entanto, com o apoio de uma vizinha, que também havia tido filhos à época e ofereceu o peito ao bebê, essa fase foi superada. No entanto, o terceiro filho tinha ainda mais problemas: sua saúde era debilitada, e ele precisava de remédios, além de ser internado com frequência.
Devido a tudo isso, o pai teve que aumentar sua carga de trabalho. Agora saía cedo e só retornava de madrugada, basicamente indo para casa apenas para dormir algumas poucas horas.
E quanto a essa mãe? Os afazeres domésticos e o cuidado com os filhos se tornaram sua vida, mas ela se sentia relativamente feliz com isso. Sempre que lhe sobrava tempo, assistia à televisão, especialmente as novelas. Os filhos estavam em casa apenas à noite: uma estudava de manhã, outro à tarde, e o terceiro ficava com ela até ter idade para entrar na pré-escola. Suas tardes, após os afazeres domésticos, eram dedicadas a conversar com as vizinhas, ouvir rádio, assistir à TV e buscar um filho ou outro na escola. Aos fins de semana, saíam todos em família: pai, mãe e filhos. O dinheiro estava mais curto do que antes, mas ainda conseguiam se divertir, e o esforço deles era recompensado.
Quando veio a notícia da quarta gravidez, ela já mal se lembrava dos antigos sonhos. Ficou mais empolgada que o marido, mas ambos estavam felizes, afinal, esse era o número exato de filhos que um dia haviam desejado. A construção da casa já estava concluída, embora o terreno ainda levasse quase duas décadas para ser totalmente pago. O plano estava traçado. Ela se propôs a voltar a trabalhar quando o quarto filho tivesse idade para ir à creche, o que poderia ajudar a manter a vida confortável dos primeiros anos. No entanto, o marido se impôs: era melhor que ela continuasse cuidando dos filhos, seria o melhor, principalmente para eles. Ela não pestanejou, concordava com ele. O melhor para os filhos também era o melhor para ela mesma. Sua vida já se confundia com a deles, e ela não se via mais além deles.
A certa altura, descobriu a igreja. Antes disso, vivia na flutuação das crenças alheias, alimentada pelas narrativas de membros de diversas religiões, mas, por fim, encaixou-se perfeitamente em uma paróquia católica. Lá conheceu e fez a maioria de suas amizades. Dedicou-se de corpo e alma à sua santa, à sua fé e à igreja, da mesma forma que se dedicou aos filhos durante todos esses anos, pois agora, com os filhos crescidos, tinha mais tempo para si. Mas sua vida sempre fora de entrega e dedicação. Era tudo o que ela sabia fazer, e tudo o que tinha para dar era a si mesma, o que fazia de bom grado. Sonhou diversas vezes com o terceiro filho se tornando um homem religioso, um padre, um bispo. Isso nunca aconteceu, mas ela não se decepcionou. Sua maior dor era a falta que sentia da mãe e o vazio que ficou quando os filhos começaram a se distanciar e a ir cada vez para mais longe.
Ela sempre fora uma mulher meio calada, que fazia tudo em um silêncio discreto — o silêncio da timidez e do consentimento com o que quer que lhe dissessem para fazer. Isso podia ser reflexo de diversos fatores: a criação em obediência, a infância de trabalho, os estudos abandonados no ensino fundamental. Essa quietude durou até muito tarde, quando ela parou de aceitar que falassem com ela de forma dura ou a olhassem torto. Cansara-se do silêncio que lhe servia.
Antes dos sessenta anos, seu corpo e sua memória já estavam cansados, certamente por causa da falta de exercícios para ambos. A exigência física sempre esteve voltada para a criação dos filhos e o cuidado com a casa, o que não contribuiu para a sua saúde a longo prazo. A falta de instrução e os poucos estudos não lhe forneceram o treino necessário para que sua mente permanecesse intacta aos cinquenta e poucos anos. Irritava-se muito sempre que esquecia o que estava fazendo ou como preparar algo que, há pouco tempo, fazia com perfeição. No entanto, ainda havia uma alegria singela quando um filho ou outro a visitava e a ajudava em alguma coisa. E assim, sua vida continuava.
Jamais se poderia questionar a energia e os meandros simples da vida de uma mãe que dedicou sua existência à sua família.