O eterno estrangeiro

O sentimento de pertencimento, de estar em casa, é possivelmente um dos mais importantes para algumas pessoas. Esse sentimento proporciona a sensação de segurança, de comunidade e uma felicidade social, afinal, o ser humano é, de fato, uma criatura social. No entanto, esse sentimento não parece ser facilmente alcançado por todas as pessoas da mesma maneira, e, para alguns, é inalcançável. Este texto é dedicado a esses indivíduos que nunca se sentirão pertencentes, que nunca se sentirão em casa – os eternos estrangeiros.

Sozinhos ou em meio a multidões, a solidão reside em seu interior. Na cidade em que nasceram, no mesmo estado ou em outro, no mesmo país ou em qualquer outra nação, ali a solidão faz morada. No seio de suas famílias, de seus amigos, a solidão se manifesta. Não importa para onde vão ou com quem estejam, a solidão é a sua única companhia verdadeira. Isso ocorre porque nunca compreenderam que o verdadeiro lar não é um lugar físico, e o pertencimento não está no coração de outra pessoa.

Há aqueles que empreendem grandes jornadas, dedicam-se a explorar o mundo, conhecendo o máximo de povos e culturas, na esperança de encontrar um lugar onde finalmente se sintam familiares, onde se sintam parte. No entanto, não importa o quanto tentem, o quanto vejam, o quanto andem e tentem permanecer, sempre sentem que algo está faltando. A frustração se instala, pois, apesar de todas as experiências, não conseguem preencher o vazio em seus corações. Não importa para onde vão ou retornem, sentem-se eternos estrangeiros. Junto com essa condição, carregam a vã esperança de que algum lugar não explorado, alguém ainda não conhecido ou alguma cultura não absorvida seja a resposta para seus anseios.

A solidão e o desconforto perpetuam a existência do eterno estrangeiro, acompanhados por uma fome, um tédio que nunca se dissipa. Nas conversas em grupo, nada lhe interessa ou se encaixa; as atividades propostas pelas pessoas ou as obrigações do cotidiano parecem pequenas e vazias. Seu mundo sempre parece incompleto, sempre há algo faltando. Seu maior prazer e emoção residem no meio. O início de qualquer empreendimento é um inferno particular, e o final é sempre frustrante, não importa quão grande seja a conquista. Mas é no meio, no processo, enquanto o caminho e seus desafios estão vivos, que encontram energia, prazer e alguma emoção. E é nessas emoções que parte de suas almas vive intensamente.

A grande viagem, que tanto custou e foi difícil de realizar, que lhes deu grande impulso para seguir em frente e os fez sentir vivos, desmorona quando finalmente acontece. Diante de um famoso cartão postal tão almejado, o símbolo de sua conquista se torna uma grande dúvida: “Por quê? Para quê?” O imenso vazio se apresenta novamente, o sentimento de não pertencer persiste, e a única alternativa é voltar a perseguir o utópico lugar que um dia poderão considerar seu verdadeiro lar, seu lugar no mundo.

Ah, querido perpétuo estrangeiro. Talvez nunca encontre esse lugar, pelo menos não olhando para fora. Seu verdadeiro lar, seu verdadeiro mundo, provavelmente só pode ser alcançado olhando para dentro de si mesmo. Você está condenado a nunca pertencer a nada, a ninguém, a lugar algum. Ele está condenado a lutar com sua forte individualidade contra um mundo que tenta impor interesses e objetivos padronizados. Sua vida nunca será calma, e por dentro viverá a eterna tempestade de querer ser quem é, de querer encontrar um lugar onde possa ser completamente sincero e compreendido. Mas, neste mundo, um lugar assim pode não existir.

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