O mundo está tão pequeno e próximo como nunca esteve, com cidades cada vez mais populosas, e nunca foi tão fácil encontrar pessoas que se identifiquem em algo. Em contrapartida, alguns continuam se sentindo extremamente sós, ou talvez ainda mais. Somos influenciados a estar sempre em busca de alguém, de ter amigos, de estabelecer relacionamentos. Somos criaturas sociais, mas talvez isso não seja uma regra.
A sociedade moderna implantou uma espécie de fobia à solidão, pregando como se fosse uma religião: “A solidão é uma doença. É uma maldição. Tenha dezenas de amigos, encontre um ‘amor’ e tenha uma família, sinta-se confortável com a multidão e assim serás feliz.” No entanto, para certos indivíduos, essa necessidade ou imposição só gera agonia e ansiedade.
E quanto àqueles que, mesmo em relacionamentos amorosos, entre a família e em meio às multidões, continuam se sentindo sós? Seria a solidão a verdadeira natureza de seus corações? E se for, o que isso os torna? Monstros? Aberrações? Não. Apenas espíritos que precisam de algo mais para satisfazer seu próprio ser.
Aqueles cuja semente da verdadeira solidão germinou em seu âmago não necessariamente precisam estar sós. Não estarão necessariamente isolados. Isso é quase impossível. Mas precisarão aprender a lidar com isso e entender, primeiramente, que poucos os compreenderão. E que exatamente por isso suas relações podem ser ainda mais difíceis. Afinal, quando casados, namorando ou no seio de uma família, explicar que ainda se sente só é um desafio. Isso se não optarem por ocultar e fingir, como a maioria tentará, pois assim é mais fácil lidar. No entanto, o caminho da mentira, tentar enganar a si mesmo, é o caminho para o adoecimento mental.
E quais são as opções para o verdadeiro solitário? Dizer ao mundo “posso amá-los, mas vocês não estão em mim, eu jamais caberei em vocês” e arcar com todas as consequências? Mentir e abraçar uma felicidade superficial, tentando evitar conflitos e talvez adoecer? Parece uma dualidade, uma escolha dupla em que, no final, sempre se sairá perdendo de alguma forma.
Ter um coração solitário, ao contrário do que se possa imaginar, não impede de amar. Não transforma ninguém em um poço de vazio. Mas é em si mesmo que mora a fonte de seus interesses, a fonte de sua felicidade. E é aí onde mora outro problema. Estamos com nosso foco tão fixado no mundo exterior, no outro, que estamos cada vez mais incapacitados de olhar para dentro e compreender a verdadeira natureza que nos envolve. Seu autoconhecimento é sua libertação, mas diante dessa sociedade, a chave para isso pode levar anos, décadas para ser alcançada. Isso é, se, com sorte, for alcançada. É preciso compreender o abismo de distância entre o SER Solitário e ESTAR solitário. Mas é provável que a própria capacidade de compreender isso beire o impossível, tal qual quase esqueceram de como funciona sua própria linguagem.
O pobre coração solitário é justamente aquele que sempre dará o seu máximo, correrá descalço na trilha de espinhos e entregará tudo sem medo, pois está transbordando, está repleto de si e vazio do que tentaram fazer dele. E é exatamente por isso que ele também vivenciará abundantemente a dor. Ao se dar por inteiro, sem respaldos, sem pormenores, e como consequencia será estilhaçado.
O solitário inveterado olha para o mundo e não vê nele nada que de fato satisfaça seu vazio no peito. Sente que o mito da completude é um erro. Não está disposto a suprir a intenção da sociedade, não estabelece vínculos falsos, não precisa formar uma família, não sente que precisa responder a ninguém nem a nenhum anseio externo. O que o mundo tenta fazer dele é apenas uma comédia para seus ouvidos. Sua verdadeira paz, sua verdadeira felicidade só podem ser encontradas em seu próprio coração, e em nenhum outro lugar. Então, para ele, não importa se está em meio às multidões ou na solidão de um quarto frio, sempre o esperará a mesma coisa: Solidão.