Em certa altura da vida, cresci em meio a um contexto profundamente marcado pela influência cristã, mais especificamente católica. Negar que, mesmo não me considerando cristão, ainda carrego comigo muitas dessas noções e conceitos, apesar das tentativas de me desvincular deles, seria, no mínimo, um exercício de hipocrisia. E é justamente sobre a hipocrisia que quero refletir.
Religiões, em sua essência, oferecem ao grupo objetivos, diretrizes morais e comportamentos a serem seguidos, ainda que, por vezes, pareçam contraditórios ou até prejudiciais. No entanto, como a história e a tradição repetidamente evidenciam, muitos grupos e indivíduos dotados de poder e influência transformam a religião em instrumento. Um instrumento de controle, manipulação e ampliação de poder.
O uso instrumental da religião é, talvez, uma das práticas mais antigas da história humana, se é que existe algo além disso em certos contextos. Essa instrumentalização se manifesta como mecanismo de controle de massas, como reforço de normas vigentes, como justificativa para atos e estruturas sociais, como legitimação do sofrimento e da desigualdade. E a lista se estende.
Esse fenômeno não se restringe às elites ou a grupos de grande influência. Ele também se manifesta em níveis mais cotidianos, mais próximos, e nem por isso menos cruéis.
Pensemos em um exemplo. Um indivíduo que cresceu em uma família cristã se casa, mas, em pouco tempo, passa a desejar a mulher do próximo. Gradualmente, seus comportamentos se transformam. Exibe-se dentro da igreja para a pessoa desejada, afasta-se de amigos e familiares, passa a atacar a própria esposa, acusando-a de traição.
O desfecho é previsível. O ato se consuma, o caos se instala, o casamento se desfaz, vínculos são rompidos. Ainda assim, ele não reconhece sua responsabilidade. Ao contrário, a transfere. E é nesse ponto que a religião entra em cena. Todo o ocorrido é reinterpretado como um teste divino, uma suposta ação de Deus para afastar pessoas “más” de seu caminho. Ele se coloca como alguém elevado, enquanto os demais são reduzidos a seres dominados por instintos. O traidor se converte em justo, em guardião da moral, e os outros passam a ser instrumentos do inimigo. Situações como essa, com variações, repetem-se mais vezes do que se gostaria de admitir em diferentes contextos religiosos.
Consideremos outro exemplo, igualmente próximo. Um indivíduo com histórico prolongado de comportamentos questionáveis, vivendo às custas dos outros, manipulando pessoas para benefício próprio, aplicando golpes em mulheres e familiares, subitamente se volta à religiosidade, desta vez dentro do espiritismo.
Curiosamente, passa então a oferecer conselhos, a conduzir estudos e a proferir discursos de natureza espiritual. No entanto, ao ouvi-los com atenção, percebe-se que, em muitos casos, funcionam como tentativas de suavizar ou justificar seus próprios atos. Afirma que tudo o que acontece foi previamente acordado em outro plano, que estamos aqui apenas para aprender, que erros presentes serão compensados em futuras encarnações. Dessa forma, a culpa se dilui. Deixa de ser responsável por suas ações, pois tudo estaria inserido em um plano maior, previamente estabelecido. E aqueles que sofrem ao longo desse processo também seriam apenas parte desse mesmo caminho.
No fundo, o que se revela é má-fé. Uma recusa deliberada em assumir a responsabilidade pelos próprios atos. As escolhas individuais são deslocadas para um plano metafísico, intangível, que, dentro dessa lógica, se torna imune a questionamentos.
E é difícil acreditar que esse tipo de comportamento seja fruto de ingenuidade. Há, em muitos casos, uma manipulação consciente da religião como ferramenta de autopreservação. Não traem, dizem estar sendo testados. Não cometem abusos ou fraudes, afirmam estar seguindo um desígnio superior.
Mas essa hipocrisia não se limita a uma tradição específica. Não pertence apenas ao cristianismo ou ao espiritismo. Ela atravessa diferentes religiões e, em certa medida, ultrapassa a própria religião. Surge tanto em sistemas que restringem a liberdade em nome de uma ordem superior quanto naqueles que, ao ampliarem excessivamente essa liberdade, acabam por justificar tudo.
No fim, não se trata apenas de crença, mas do uso que se faz dela.