Tenho um amigo que fez do movimento um modo de existir. Viajar, para ele, não é apenas um desejo, é quase um impulso vital. Trabalha em função disso, organiza a vida em torno de partidas, coleciona destinos como quem tenta preencher um mapa interno ainda inacabado. Seja para outros países, seja dentro do próprio, desloca-se com a esperança silenciosa de que, em algum ponto do mundo, encontrará aquilo que lhe falta.
Mas há algo que insiste. Porque, não importa o quão longe vá, ele sempre retorna. E não falo do retorno geográfico, do regresso ao ponto de partida. Refiro-me a outro lugar, menos visível e muito mais persistente, um lugar do qual nunca consegue escapar por muito tempo, o vazio.
Ele vive em ciclos. Como uma serpente que devora a própria cauda, repete um ritual antigo. O incômodo o empurra: trabalha, economiza, planeja. A promessa é sempre a mesma, a próxima viagem será diferente, será suficiente. E então ele chega. Diante de paisagens que o mundo inteiro reconhece, diante de monumentos que atravessaram séculos, como a Torre Eiffel, por exemplo, algo nele desmorona. Não há revelação, não há alívio. Apenas o confronto silencioso com aquilo que o acompanha. Um sentimento sem nome, ou talvez com um nome simples demais: vazio.
Há outros que caminham sob o mesmo peso invisível. São estrangeiros de si mesmos. Sentem-se deslocados, por vezes desmotivados, como se habitassem um mundo que nunca se encaixa plenamente. Alguns tentam negociar com essa ausência através do consumo, compram, acumulam, substituem. Mas o prazer se desfaz rápido, como se nunca tivesse sido feito para durar. Outros se perdem em excessos, em vícios, em atalhos que prometem anestesia. Uns se ferem, outros ferem ao redor.
Eu segui outro caminho, ou assim pensei. Busquei no conhecimento uma espécie de redenção. Aprender tudo, compreender o máximo possível, como se a lucidez pudesse preencher aquilo que faltava. Mas não preencheu. O vazio não se rende à razão. Não houve libertação.
O que une todos esses percursos é justamente o fracasso deles. Nada resolve. Há sempre essa sensação opressiva, quase inevitável, de que nada basta e de que, cedo ou tarde, o vazio retorna, como uma maré que nunca deixa de subir.
E talvez isso diga algo essencial: nada externo parece capaz de resolver aquilo que é, em sua natureza, interno.
Percebo também outra tentativa recorrente, a busca por pertencimento. Uma urgência por aceitação, por reconhecimento, por ser visto através do olhar do outro. Em alguns casos, chega à bajulação, à submissão a grupos, a identidades emprestadas. Mas o preço é alto. Aos poucos, tornam-se uma construção instável, uma colcha de retalhos feita das percepções alheias. Uma criatura fragmentada, como um Frankenstein emocional, que mal se reconhece no próprio reflexo.
Há algo de vulcânico nisso tudo. Como se fossem vulcões em constante erupção, expelindo partes de si, esvaziando-se sem perceber, enquanto secretamente desejam recuperar aquilo que perderam. Mas nada que venha de fora substitui o que foi lançado para fora. Nada preenche. Nada recompõe.
E talvez o erro esteja exatamente aí.
Aquilo que buscamos no mundo, nos lugares, nas pessoas, nas experiências, pode não estar do lado de fora. Pode estar, silenciosamente, do lado de dentro, aguardando não ser encontrado, mas reconhecido.
Se me fosse permitido opinar, diria que o meu amigo jamais encontrará, em qualquer coordenada do mapa, aquilo que procura. Não porque o mundo seja insuficiente, mas porque ele mesmo ainda não sabe o que busca.
Podemos atravessar oceanos, reais ou imaginários. Podemos dar nomes às nossas jornadas, transformar deslocamentos em narrativas grandiosas. E, ainda assim, permanecer incapazes de nomear o próprio sofrimento.
Ou pior, podemos nomeá-lo, e então perceber, com uma lucidez cruel, que, a longo prazo, nada disso importa. Nem as viagens, nem os objetos, realacionamentos, “amores”, nem os prazeres breves que colecionamos para suportar os dias. Resta apenas o encontro inevitável.
Porque, não importa para onde vás, o vazio vai te encontrar.